ENTREVISTA: Eng. Amb. Nathalia Pinheiro

Publicado em: 22 de fevereiro de 2021

A engenheira ambiental Nathalia Pinheiro tem vasto estudo sobre os manguezais, assunto de sua Dissertação do Mestrado em Sustentabilidade de Ecossistemas pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e afirma que é possível conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental.

 Atualmente, ela é Doutoranda em Ciências Ambientais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e professora de cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Ceuma, com pesquisas no ramo da Engenharia Ambiental e Sanitária.

Também atua na área operacional da Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão – CAEMA,  está como conselheira fiscal da Federação Nacional das Associações de Engenharia Ambiental e Sanitária (FNEAS) e faz parte do conselho da Área de Proteção Ambiental da Região do Maracanã, do Parque Estadual do Sítio do Rangedor e do Comitê de Bacia Hidrográfica do Turiaçu.

Acompanhe a entrevista que ela concedeu a este Portal:

Falando em ecossistema, assunto de seu Mestrado, podemos dizer que os manguezais do Maranhão são o maior símbolo de nosso ecossistema?

O manguezal é um ecossistema do tipo costeiro e fica localizado em cotas mais baixas, na foz de rios e de estuários onde você tem uma variação de maré, tendo influência nessas regiões. Por conta disso, tem-se uma grande variação na salinidade.

Quanto a sua flora, destacam-se os mangues, que são vegetações do tipo halófilas, adaptadas a viverem com alta salinidade. Os mangues têm várias espécies que se destacam neste contexto. As mais conhecidas são a siriúba, o mangue vermelho, mangue branco e mangue de botão.

O ecossistema manguezal é muito importante, porque, além de oferecer serviços ambientais, ele também gera sustento e equilíbrio ecológico de toda uma cadeia alimentar que vive nas regiões costeiras.

 Quais os tipos de vida presentes nos mangues?

Chamamos os manguezais de berçários naturais porque muitas espécies da microfauna e da macrofauna utilizam o ecossistema para sua reprodução. Além disso, diversas espécies também utilizam os manguezais como meio de proteção de suas larvas e de seus filhotes até ganharem uma vida adulta.

A avifauna se beneficia desse ecossistema, como as espécies migratórias que o utilizam para descansar e se alimentar.

Destaco também o caranguejo, que tem uma importância para o equilíbrio ecológico e também é muito utilizado na culinária maranhense e brasileira.

No litoral do Maranhão ainda encontramos uma das maiores áreas contínuas com relação à distribuição dos manguezais no litoral brasileiro. Possui uma relevância ecológica e socioeconômica significativa para o nosso Estado.

Porém, mesmo o Brasil tendo uma extensa faixa de manguezal e este ecossistema abrigando e permitindo a vida de várias espécies costeiras e fornecendo serviços ecossistêmicos relevantes, o manguezal é considerado um ecossistema muito frágil e vulnerável.

As regiões litorâneas, costeiras, são muito ocupadas pela população e, por conta disso, as pessoas vivem muito próximas do manguezal. Isso faz diferença, também, com relação à socieconomia local, porque muitas pessoas têm uma relação muito íntima com essa área costeira e, às vezes, depende financeiramente dela. Então, a gente vê que há uma importância ambiental, mas também tem essa função socioeconômica para a população.

Quais as maiores ameaças aos manguezais?

Temos perdas expressivas de manguezais por questões de supressão vegetal, por ocupação irregular. Destaco também a carga de contaminação recebida por esses ecossistemas. É constante a carga de poluição por falta ou insuficiência de saneamento de bairros, contaminantes vindo de fontes comerciais, industriais, entre outras fontes.

Qualquer alteração que o ser humano faça no meio ambiente, pode causar diminuição dos fragmentos de manguezal, ou pode até aumentar esses fragmentos. Se você modificar a intrusão salina, você vai ter mudança com relação à paisagem daquele local. Em São Luís, têm alguns fragmentos que resistem às pressões do meio urbano.

Como a população pode colaborar para a preservação?

Nós temos que pensar estratégias de proteger, de preservar esses manguezais, pois fazem parte da Área de Preservação Permanente (APP), e isso é estabelecido pelo Código Florestal de 2012 e pela nossa Política Estadual de Meio Ambiente do Maranhão, que estabelecem que os manguezais devem ser áreas de preservação.

Vale a importância das ações da população junto às instituições. A sociedade tem que se envolver neste debate com relação às atividades que possam causar danos ambientais, tanto da supressão vegetal, quanto no lançamento de contaminantes feitos diariamente nos manguezais. Primeiro, ela tem que se conscientizar sobre qual a importância deste ecossistema. Mas para isso, é necessário um bom trabalho na área de educação ambiental formal e informal.

Como uma entidade como o Crea-MA pode colaborar para a conscientização da sustentabilidade nos projetos nas áreas de engenharia e agronomia?

O Crea pode ajudar fortalecendo a fiscalização das atividades profissionais. Porque nós, profissionais das áreas da Engenharia, Agronomia e das Geociências, podemos executar atividades que podem modificar todo um ecossistema e a paisagem local. Isso pode trazer consequências irreparáveis a uma biota de um ecossistema considerado frágil. São danos ambientais e socioeconômicos que podem ser expressivos no nosso Estado.

Nós temos que nos atualizar. A gente não pode viver de antigas práticas, temos que nos adequar ao modelo de desenvolvimento sustentável. Você cuidar não só do ecossistema manguezal, mas de outros ecossistemas também importantes no nosso Estado. Devemos trabalhar de forma a preservar aquilo que temos de melhor, que nos traz qualidade de vida. Nós somos responsáveis pelas atividades que assinamos e o Crea-MA tem papel importante como agente fiscalizador das atividades profissionais.

A legislação é eficaz?

O Código Florestal (artigo 7º, parágrafo 2º) deixa uma brecha com relação às questões das atividades que podem ser executadas em áreas de manguezal. Ele diz que pode ser feita supressão vegetal nativa em área de manguezal, desde que tenha sido comprometida a sua função ecológica. E aí pode, sim, ter obras habitacionais de urbanização. E isso abre oportunidades para empreendimentos adquirirem licenças ambientais para construírem nessas regiões. Liberar licenças em locais que podem alterar a dinâmica costeira pode causar um grande impacto nas regiões dos manguezais. Portanto, é um assunto que tem que ser muito discutido e avaliado.